Foco em gestão
O segmento de veículos comerciais já viveu dias melhores. Embora os impactos da crise tenham sido menores aqui do que em outros mercados, como o da Europa, o setor também enfrenta queda nas vendas.
(*) Alexandre Augusto Nogueira
Mesmo com os incentivos proporcionados pela redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) e as linhas de financiamento do BNDES, o setor de veículos comerciais sofre com a crise econômica e registrou, nos primeiros quatro meses deste ano, uma queda de 18,2% em unidades vendidas no mercado interno, quando comparadas com as vendas no mesmo período do ano passado. Se considerarmos o volume de exportações, a queda nos primeiros cinco meses deste ano foi de 30%.
Em termos de mercado interno, a fatia maior de vendas é de caminhões; os ônibus predominam quando o assunto é exportação. De janeiro a maio deste ano, foram vendidos 36 mil caminhões novos, segundo a Carta da ANFAVEA (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores - Brasil), nove mil a menos que o comercializado no mesmo período de 2008.
O momento agora é de certa estabilidade, com perspectiva de retomada a médio prazo, mas só o tempo dirá o que de fato vai acontecer em termos de aquecimento econômico. Enquanto isso, a indústria segue com suas atividades, com foco cada vez mais voltado à melhoria de gestão, tanto de produtos e processos quanto de capital intelectual. Dinâmico e em sintonia com os mercados mais evoluídos do mundo, o setor de veículos comerciais no Brasil tem evoluído continuamente nas últimas décadas. A atenção agora está voltada para uma gestão orientada às necessidades dos clientes para a excelência operacional e ao desenvolvimento da infraestrutura humana.
Com a produção determinada cada vez mais pela demanda, a chamada "produção puxada", o setor preocupa-se não só em ter excelência nas áreas de manufatura, mas também em estar capacitado para atender com agilidade as diferentes exigências dos clientes. Neste setor, os veículos - caminhões, ônibus e pequenos utilitários - oferecem inúmeras variantes de composição no conceito taylor made, para atender à diversidade de recursos solicitada pelo universo comprador. Atuar com competência nesse modelo exige uma inteligência de gestão e um capital humano muito bem formado, capaz de responder rapidamente aos novos desafios.
Há 40 anos, 90% desse mercado eram formados por veículos leves. Hoje, eles correspondem a 40% do mercado; os outros 60% são representados pelos veículos semi-pesados e pesados. Outras mudanças acompanharam essa inversão no market share. De lá para cá, a produção que antes trabalhava com máquinas "dedicadas", produtos padronizados e alto grau de verticalização, hoje contam com máquinas de atuação flexível, parcerias com fornecedores e equipes multifuncionais, capazes de responder a uma demanda cheia de variáveis de modelos e recursos.
Mais do que nunca, a indústria atua hoje focada em seu core business - ou seja, com dedicação voltada ao seu talento principal. A produção hoje é por demanda, o produto é taylor made e o mercado é global. O atributo de competitividade, antes concentrado na redução de custos (anos 1960), caminhou para a fase da qualidade total (anos 1970), depois, para a necessidade de flexibilização de plantas (anos 1980), chegou à questão da gestão do meio ambiente (anos 1990) e, agora, fundamenta-se no aprimoramento da excelência operacional voltada para o cliente final.
Com um mundo globalizado e cada vez mais competitivo, a operação hoje se preocupa com aspectos que vão desde a viabilidade e custo operacional do produto até fatores de pós-venda. É uma constante busca pelo melhor - melhor custo x benefício, melhor tecnologia disponível, melhor eficiência energética uso do conceito design for manufacturing, atendimento aos atributos de consumo, seleção e desenvolvimento de fornecedores, entre outros fatores. As plantas, antes "dedicadas", foram-se modificando, adequando-se aos novos tempos e hoje apresentam alta flexibilidade e integram atividades próprias com as de fornecedores. Do conceito planta isolada passamos pelos chamados distritos industriais, evoluímos para os condomínios industriais e, atualmente, as plantas mais modernas atuam em formato de condomínio modular, com fornecedores integrados no mesmo espaço físico.
Toda essa configuração prevê, na outra ponta, profissionais muito dinâmicos, com facilidade de se adaptarem às novas tecnologias e às necessidades do mercado, espírito de liderança capaz de ampliar seu olhar para o que está além do universo puramente técnico. Desenvolver competências multidisciplinares, trabalhar em equipe, desafiar-se em atividades mais complexas dedicar-se com paixão e inspiração e acompanhar a evolução da diversidade já não são opções, são fatores que podem determinar o avanço profissional.
(*) Alexandre Augusto Nogueira é engenheiro eletrônico formado pela Mauá em 1992, com doutorado pela USP - Economia & Sociedade (Programa de Integração da América Latina), MBA em Economia e Administração, Mestrado em Sistemas Eletrônicos pela Escola Politécnica (USP) e especialização em Gestão de Pessoas pela Faculdade Getúlio Vargas. E também Gerente de Fabricação de Protótipos da Divisão Caminhões da Mercedes Benz do Brasil.
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