Transporte eficiente: não há solução em curto prazo
Os gargalos de uma ineficiente malha de transporte público e suas consequências no cotidiano das pessoas que vivem nos grandes centros urbanos são inúmeros e de resolução complexa. Quem participou da palestra no campus de São Caetano do Sul do Instituto Mauá de Tecnologia, no começo de outubro, teve a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre o problema.
Integrante do ciclo de palestras promovido pela Instituição para debater as questões ligadas à infraestrutura do País, o tema “Os desafios e as oportunidades para o transporte público em São Paulo” atraiu a atenção de um auditório qualificado e interessado na experiência do professor de Engenharia e consultor em Políticas Públicas, com destaque para Transportes e Habitação, Engenheiro Adriano Murgel Branco.
Profundo conhecedor do setor de Transportes, Adriano Branco, que também é vice-presidente do Instituto Mauá de Tecnologia, traçou um panorama amplo e bem fundamentado sobre o problema do transporte público nos grandes centros, especialmente em São Paulo, que já figura entre as metrópoles com trânsito mais caótico. Segundo estudos recentes da IBM Commuter Pain, São Paulo é a sexta pior cidade do mundo para se transitar.
O preço do caos
Estima-se que a região metropolitana de São Paulo perde – ou deixa de gerar riqueza – cerca de R$ 40 bilhões/ano em decorrência da ineficiência do trânsito. Suas mais de 40 mil ruas e avenidas não comportam mais a avalanche de carros, caminhões, ônibus, lotações e motocicletas. O resultado é um cenário catastrófico, que provoca uma infinidade de problemas e perdas, desde o excesso de tempo das pessoas com o deslocamento de um ponto a outro, até o consumo exagerado de combustível, baixa produtividade dos profissionais que chegam estressados ao trabalho e outros fatores, como a poluição ambiental.
Não são poucas as empresas que mudaram suas instalações da capital para fugir do impacto negativo causado pelo trânsito de São Paulo em suas operações e as pessoas físicas que têm fugido dos grandes centros para terem mais qualidade de vida. “O enfrentamento diário de um congestionamento como o de São Paulo causa fadiga nas pessoas, que se sentem exaustas antes mesmo de começarem sua jornada de trabalho. Estudos mais aprofundados sobre essa questão apontam que o trânsito provoca uma queda de produtividade de 15 a 20%, em média, no desempenho das pessoas. Nos grandes centros, esse número já alcança a casa dos 25%”, advertiu o professor Adriano Branco em sua palestra.
Como enfrentar o problema
A busca por uma solução passa por muitas instâncias – do setor público ao privado e, claro, pela atitude positiva e mais consciente de cada um. A aquisição de um carro é desejo de consumo da maioria das pessoas. Um carro representa independência e mobilidade de que ninguém está disposto a abrir mão. Mesmo em países conhecidos pelo hábito de andar de bicicleta, como a China, à medida que o poder aquisitivo aumenta, os carros tomam as ruas e a logística complexa vai roubando a cena.
Em sua apresentação, o professor Adriano destacou que a solução para essa questão é complexa e envolve um sistema que integre diferentes opções. É preciso uma malha diversificada e de qualidade em todas as alternativas para suprir uma demanda dessa ordem. Só ampliar as linhas de metrô não atende a complexidade de uma cidade com o perfil e as dimensões de São Paulo. Segundo ele, São Paulo registra hoje cerca de 60 mil usuários por hora nas linhas de metrô; nos ônibus, esse movimento atinge a marca de 8 mil passageiros por hora. “A cidade carece de uma alternativa intermediária que poderia ser atendida com a criação de corredores de ônibus elétricos, por exemplo. Um sistema moderno e que opera com sucesso em muitos lugares da Europa”, acrescentou o palestrante.
Para o professor Adriano, um sistema bem estruturado nesse setor poderia transportar perto de 35 mil passageiros por hora. “Além de moderno, é uma alternativa que pode ser implementada de forma gradual, escalonando os investimentos. Ao contrário do que acontece com a ampliação do metrô”, enfatiza.
Polêmico e de diferentes vértices, o tema movimentou a plateia atenta, que participou ativamente com questionamentos que focaram desde a construção do Rodoanel até outros aspectos. Todos foram devidamente esclarecidos pelo professor Adriano Branco e pelos integrantes da mesa de debates desse ciclo: professor doutor Otávio de Mattos Silvares, reitor do Centro Universitário do Instituto Mauá de Tecnologia, e o professor Osvaldo Sansone, especialista em Transportes.
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